CERRADO INFINITO

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O Cerrado Infinito é um território com aproximadamente 1.500m2, com uma trilha com 160m de extensão, e sua vegetação tem mais de 100 espécies de plantas nativas dos campos de cerrado paulistanos, que em conjunto recriam a paisagem nativa, cenário da Vila de São Paulo de Piratininga.

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Ananás do cerrado com sua espetacular cor vermelha. O projeto inaugurou a percepção de que uma vegetação arbustiva e campestre pode ser possível numa cidade violenta como São Paulo. Até então todas as área públicas são mantidas com gramados,  plantas baixas e árvores altas, evitando moitas que  poderiam se tornar supostamente esconderijos de bandidos. 9 como se por acaso estes precisassem disso )

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Na foto, asa peixe roxo, lingua de tucano, capim rabo de burro, lantana roxa, axa peixe roxo e branco, pixirica, mimosa, capim barba de bode, fruta do pombo, entre outras que não é possível visualizar na foto, e que descolonizou a vegetação exótica e pobre de biodiversidade do gramado e paisagismo da praça.

Cerrado Infinito é o primeiro experimento de recriação de uma paisagem de cerrado dentro de uma área pública urbana. Um refúgio de plantas inevitavelmente extintas ao longo do desenvolvimento da cidade de São Paulo, e expulsas para a periferia até seu completo desaparecimento.

O projeto as resgata, mapeando sobreviventes, coletando mudas e sementes para serem plantadas em conjunto, formando ao longo do tempo a visualidade dos extintos Campos de Piratininga. A tentativa é desprogramar territórios pela cidade, e devolver a terra a um marco zero, anterior à ocupação colonial. Também é um esforço para cultivar um terreno baldio e biodiverso de plantas, animais e de pessoas à medida que recuperam a memória do lugar que habitam. O projeto instaura um novo começo, onde os cidadãos são convidados a plantar cerrado, criar um convívio cotidiano com essas plantas e uma nova cultura campestre pela cidade, que inverte a estética valorizando  uma  flora sempre desconsiderada, sistematicamente destruída, e vista como mato do atraso. Trata-se entre outras coisas, de tomar ciência das histórias do nosso desenvolvimento e destruição, trazendo à frente, a importância dessa pequena área de cerrado que já ocupou mais da metade da cidade. Este primeiro sertão, hoje extinto, esquecido e fora da cartografia do bioma, palco e origem de toda a cultura sertaneja com sua culinária, música e comportamento, forjou uma cidade que apaga seu reflexo caipira entre edifícios de vidro. O projeto é um lembrete do paraíso perdido paulistano com sua natureza riquíssima e biodiversa, um mosaico de biomas, com delicados campos de cerrado, várzeas pantaneiras e a exuberante floresta atlântica. Se esta cidade é um modelo de desenvolvimento para o resto do pais, o projeto  não deixa de ser um monumento involuntário á nossa inabilidade como povo de evitar a destruição dos biomas e da nossa identidade com a paisagem natural.

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O  processo de construção começou em junho de 2015, por meio de mutirões coletivos semanais, com um transito de pessoas interessantes e interessadas em visualizar como era este lugar antes do urbanismo da cidade.

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Floração intensa de lantana roxa, uma espécie não cultivada para fins ornamentais, típica da cidade de São Paulo, mas redescoberta e devolvida para o convívio, apenas agora com o projeto. No Cerrado Infinito elas se estabeleceram bem se reproduzindo facilmente, causando sensação,  principalmente na primavera.

Iniciado em Junho de 2015, o processo de construção do Cerrado Infinito teve ao longo do tempo várias fases, a primeira foi de coleta e mapeamento de áreas e plantas sobreviventes pela cidade, para serem plantadas em conjunto, seguindo um raciocínio de colagem da paisagem vegetal. Uma vez estabelecidas, passamos a semear e reproduzir as espécies para adensar a vegetação com mudas. Todo o terreno originalmente um barranco íngreme, foi continuamente remodelado, para permitir o desenvolvimento da trilha, cavando, deslocando e adicionando alguns caminhões de terra. Inúmeras atividades foram propostas de ativação e reconhecimento do território, boa parte condensada em eventos chamados DESCOLONIZATION! Picnic Internacional de Dexcolonização da Paisagem Vegetal Mundial, com a participação de outros artistas. Também demos suporte e esclarecimentos para grupos de ativistas, escolas, e interessados no assunto, palestras junto com especialistas de restauração de cerrado, paisagistas, botânicos e artistas.

Durante a pandemia de Covid-19, o projeto ficou reduzido a poucas pessoas, na impossibilidade de organizar encontros, no entanto atividades de manutenção tem sido feitas constantemente, inclusive reintroduzindo novas espécies de plantas, que estavam extintas na metrópole.

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Prospepção e coleta de exemplares é uma rotina, antes do projeto começar, infelizmente a maioria desses últimos metros da verdadeira e significativa paisagem da cidade continuam sendo destruídos. acredito que num futuro muito próximo as plantas campestres nativas da cidade só existirão no Parque do Juqueri e no Cerrado Infinito, caso continuem existindo.

 

CERRADO INFINITO NA ESCOLA ESTADUAL

JARDIM DAS CAMÉLIAS

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Convidado pela minha amiga Silvia MH, artista e educadora, fui apresentar meu trabalho na Escola Estadual Jardim das Camélias, durante sua aula de artes.

Um ano depois, já com o Cerrado infinito na Praça Homero Silva, conversamos sobre a necessidade de expandir a trilha para outro local da cidade, e lembramos que a escola possuía um grande terreno, completamente abandonado. Fui lá e conversei com a direção, que aprovou a iniciativa de fazer o plantio e desenvolvermos um pequeno Cerrado Infinito com os alunos.

Era um plano da utopia do Cerrado Infinito expandir a trilha em vários pontos pela cidade, e nessa vontade utópica, conectá-los no futuro até criar uma grande área campestre urbana. Mas o cultivo de cerrado é uma tarefa difícil ainda em processo de entendimento, e antes disso é necessário reprogramar nossa relação com as plantas, pensei que nada poderia ser melhor do que começar numa escola. O processo durou dois anos, eu levava plantas todas as quartas feiras e ensinava os alunos a plantarem, entenderem as relações entre elas, sobre seu papel  no equilíbrio ecológico, na captação de água, com a fauna, na história da cidade, e o por que delas terem desaparecido completamente por aqui.

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Diferente do primeiro Cerrado Infinito na Praça Homero Silva, este surgiu como um tipo de escola de artista, onde os alunos aprendem conteúdos, que não são vastos aprofundamentos em assuntos, mas suficientemente claros e sintéticos, servindo de gatilhos de curiosidade, para o aluno se aprofundar se assim quiser. Acompanhar todo o processo mistura diversão e o aprendizado pratico a partir das atividades propostas, capinar para descarregar a energia, preparar o solo, explicando sua composição e relação com a vegetação, definir coletivamente um pequeno percurso, e finalmente passar a plantar, conforme apresentava cada nova espécie semanalmente. Aos poucos, foi se criando uma sinergia no grupo, as atividades se tornaram um momento esperado, e enquanto as plantas se desenvolvem e encantam todos, de funcionários a alunos, a minha relação com eles foi mudando para conversas mais desenvolvidas. Uma reflexão importante, o por que do cerrado foi expulso da cidade sobrando apenas algumas plantas na periferia, ecoou na própria condição social de um bairro pobre, desprovido do lazer e das instituições culturais, que se concentram na área central da cidade, espelhando uma segregação em comum entre eles e as plantas.

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O resultado final, quase um ano e meio depois, foi comemorado entregando um exemplar do Guia de campo para cada um.

Na volta das férias,  com assombro vimos que boa parte das plantas foram cortadas por descuido de uma funcionária, encarregada de orientar o jardineiro. Retomamos os cuidados e ainda planejamos continuar avançando, mas as atividades já não foram tão bem sucedidas. Toda essa ação foi feita sem recursos e nenhum tipo de ajuda de nenhum edital de artes ou financiamento, particularmente para mim foi uma experiência muito importante, mas o desgaste com as condições, de trabalho além de outras demandas, foram se acumulando ao longo do período, enquanto a maioria deles estava se formando e prestes a sair da escola. Ao fim do segundo ano concluímos o experimento, e alguns meses depois, sem ninguém para cuidar, tudo foi destruído pela direção da escola.

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